quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O medo da crítica.

Se analisarmos com um pouco mais de argúcia os hábitos, trejeitos e cacoetes de nossa sociedade, chegaremos a uma fatídica e lamentável conclusão: grande parte das pessoas ainda se esconde das discussões mais densas, fogem das críticas à situação política, econômica e social do país e, sobretudo, temem a aprofundar em questões tão cruciais no que diz respeito ao futuro desta sociedade. Outra trincheira na qual se esconde essa referida maioria é no fato de que o país está melhorando, o que nos poderia remeter a um questionamento inicial: o fato de o brasileiro estar vivendo cada vez mais, e com mais qualidade é fator que impede que critiquemos a mídia manipuladora, deformadora da opinião pública de que dispomos? Os altos impostos que pagamos? O preço estonteante do combustível e o grande atraso de nossa educação?
Certo dia, conversando com um profissional da educação (eu estou me formando um), ouvi a seguinte crítica à crítica (isso mesmo, ele criticou a ação de criticar): “a crítica pela crítica não resolve nada”. Isso me fez, após a conversa, parar para refletir, e as idéias fervilharam. Mas, antes de passar para o momento pós conversa, é necessário que se relate outras partes do diálogo que se consolidou. Eu questionei sobre o que ele propunha no lugar da crítica, e ele me respondeu que, aliado à crítica, sempre deve vir uma solução. Qual! Mas a crítica (e quando falo em crítica me refiro à crítica densa, bem fundamentada, com embasamento teórico, baseada em conhecimento, mínimo que seja, de causa) nesses termos, já diz tudo sobre a solução. Por exemplo, se critico um ato de corrupção do país, nada mais óbvio de que minha proposta de solução está implícita: devemos eleger políticos minimamente preparados, de valores, com princípios ou, ainda, essa atitude ilícita não deve voltar a ocorrer. Desde que minha crítica seja compreendida, ela já pode ser aceita como proposta de solução. Isso, necessariamente, não quer dizer que eu sempre deva, nos textos críticos, apresentar essa ou aquela solução para esse ou aquele caso. Mas para esse profissional, não! É necessário que se dê soluções para tudo o que é criticado. Em outro momento da prosa, eu o disse que se em tudo que ele for criticar tiver que colocar uma solução, com certeza irá se esbarrar constantemente no senso comum (claro, por que às vezes temos total embasamento para realizar uma discussão crítica, sem ter necessariamente conhecimento o suficiente para realizar propostas). A resposta dele foi que “senso comum” diz respeito a uma idéia que tem lugar entre muitas pessoas dentro de um grupo, quando na verdade, pelo menos pela minha compreensão, senso comum é aquele pensamento de tal ou qual aspecto que se faz sem que haja conhecimento de causa, sem que se saiba do que se trata, sem possuir arcabouço teórico suficiente para alicerçar os argumentos, e não necessariamente uma idéia comum a muitas pessoas.
Após à discussão (que apesar de não chegar a nenhum ponto comum, foi edificante) as reflexões surgiram com relativa consistência. Sim, é verdade que existe a crítica pela crítica, mas isso não quer dizer radicalmente que todas as críticas que não proponham soluções o sejam. Evidentemente que não. Crítica pela crítica é aquela feita no vazio (na última campanha (a)política tivemos muitos exemplos...), sem embasamento teórico específico, sem direcionar o verdadeiro foco a ser abarcado, sem utilizar-se de opiniões parecidas e até divergentes para comprovar a coerência e a relevância do objeto a ser criticado, etc. Em contrapartida, a crítica de qualidade, rigorosa, feita com cuidado, comedida e alteridade, essa sim, sequer necessita de solução, embora o possa ter, desde que essa solução não seja baseada no senso comum, ou, ainda, baseada no “acho que deveria ser assim”, “quem sabe se eles fizessem isso”, “mas eles podiam agir de tal maneira”...
Neste aspecto, defende-se uma fatalidade no interior da opinião pública brasileira, ora, a ausência de coesão entre as idéias (o que impossibilita qualquer manifestação em prol de sua melhora – a melhora das idéias). Faltam organização de idéias, discussões densas que feitas com argúcia podem gerar polêmicas extremamente salutares. Esse profissional da educação a que me referi acima, no momento em que foi tocado na questão do salário dos professores, disse: “vocês ficam discutindo coisas que os políticos nem estão preocupados”. Deveras, o sistema educacional público se tem mostrado totalmente falido, desprezado, praticamente esquecido no que concerne aos interesses do governo (sobretudo os estaduais), mas daí encontrar motivo para deixar de lado essa discussão? Isso só mostra e evidencia a alienação de grande parte da chamada “massa de manobra”. Claro que devemos discutir (mesmo que não sejamos ouvidos), criticar, insistir, sermos chatos mesmo, mas o caos educacional do país não pode ser deixado de lado por ser um problema considerado crônico.
Dessa maneira, a crítica feita diz respeito à ausência de coragem para enfrentar o complexo, a crítica, aquilo que está diante de nós, pedindo para que o transformemos e nós simplesmente viramos a face, receosos do que pode acontecer caso decidamos enfrentar a problemática que lamentavelmente se coloca. Além disso, se pretendeu mostrar a ausência de ânimo e coesão dentre os profissionais (seja de qual for a sua área) e, mesmo, a comodidade deles em encarar as discussões que, mesmo não levem a lugar algum, devem fazer parte do cotidiano das pessoas, haja vista ao fato de que nossos antepassados lutaram arduamente para alcançarem uma sociedade democrática e, sobre isso, devemos mostrar o mínimo de gratidão, lutando para que continuemos num país em que todos possuem voz ativa. Ou seja, criticar, opinar, deformar a realidade que nos é imposta, por meio da dialética, da hermenêutica, da retórica, é um papel ao qual devemos, sim, nos responsabilizar, caso queiramos continuar numa sociedade relativamente igualitária de direitos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário