terça-feira, 8 de março de 2011

Leitura em crise na escola: como enfrentar?

É quase um lugar comum observar o quanto a leitura tem sido menosprezada nos ambientes escolares. Os livros, o hábito da leitura, a apreciação da literatura são igualados quando se observa o descaso com o qual são tratados. No entanto, observamos que muitos profissionais da educação procuram estimular a leitura nos seus alunos e, com isso, muitas vezes alcançam o esperado. Convém afirmar de início, porém, que pode ser considerado total sucesso aquele empreendimento em que o professor conseguir estimular o gosto pela leitura em um único aluno apenas, tamanha a crise que se coloca. Ou seja, mesmo que diante de uma sala de quarenta alunos o professor consiga estimular a leitura em um deles, já terá cumprido louvável papel.
Os motivos que desestimulam a leitura entre os jovens são evidentes. Se concorrer com as mídias – televisão, internet, rádio – já é tarefa árdua para os professores, por vezes com discussões tão interessantes, isso fica ainda mais evidente em relação a leitura das obras literárias. Neste texto optamos por dar ênfase à apreciação da literatura, ou seja, a crise da leitura de obras literárias. Nesse caso, acreditamos ser nela mesma, na literatura, o mais adequado caminho a ser trilhado com o objetivo de enfrentar esta problemática. O que se propõe, portanto, é o enfrentamento, por parte do professor, dessa concorrência inevitável com as mídias, utilizando a leitura da literatura como principal arma.
Cabe destacar, entretanto, que não são as mídias as únicas concorrentes da atenção destes jovens, mas também as conseqüências que essa mídia já trouxe para a sociedade: o vício pelo consumo. Mas qual consumo? O consumo de alimentos, o consumo cada vez mais exagerado de indumentárias, o consumo de álcool, etc. Deste modo, além de, durante uma aula, o professor ter de lutar com a falta de atenção de seus alunos, terá de lutar com o pensamento dessas crianças que, indubitavelmente estará perdido por entre uma loja, preocupado com a disputa entre os colegas (quem se veste melhor, quem tem o cabelo mais bonito, quem está “na moda”?), ou mesmo angustiado pela demora pelo recreio (a ansiedade engana, fazendo crer que há fome).
O problema, então, é grande! Quanto a isto não restam dúvidas. Mas, por outro lado, não é possível que não haja uma solução! Mínima que seja... Antes de propor algo neste sentido, é preciso que se reflita no que disse Carlos Drummond Andrade: “Lutar com palavras é a luta mais vã/No entanto lutamos/Mal rompe a manhã”. A partir disso, é possível afirmar que o professor tem o poder de estimular a leitura. Claro que para isso terá de dispor de tempo, preparo, ânimo e astúcia com as palavras...
A Série Vaga-lume, da editora Ática, é uma importante aliada desses profissionais. Com as obras infanto-juvenis desta coleção, qualquer professor, de qualquer área (ciências, matemática, geografia, português e história) poderá se utilizar das envolventes histórias que nelas contém para estimular a leitura nos seus alunos. Açúcar Amargo, por exemplo, possui uma estória muito envolvente que pode ser trabalhada em história, língua portuguesa e geografia. O autor, Luiz Puntel, levanta questões como o êxodo rural, a mão-de-obra barata, a exploração dos trabalhadores, dentre muitas outras temáticas. E, mesmo a relação entre verdade e ficção pode ser tratada, no que diz respeito à história. Zezinho, o dono da porquinha preta pode ser utilizado como referência à violência infantil, tema tão presente nas mídias com as quais os alunos estão acostumados a dedicar seu tempo. Além disso, há muitos outros títulos interessantes, como, por exemplo, Pega Ladrão, para discutir questões éticas, Na mira do vampiro, já que a juventude encontra-se imersa numa onda de adoração a essas criaturas (em virtude de filmes, livros, etc.), entre diversos outros.
Vale ressaltar que essas obras geram interesse instantâneo, dependendo do discurso em que são apresentadas, evidentemente, e são grandes aliadas ao estímulo da leitura no ensino fundamental. É importante dizer, ainda, que estimular a leitura é um dever de todo educador, haja vista ao fato de que trazendo interesse para suas aulas (com os diálogos em torno das obras), poderá contribuir com a formação de seus alunos e espantar a dispersão deles em relação ao conteúdo. Claro que isso demanda tempo, dedicação e os resultados podem demorar, mas incentivar a leitura é uma forma de combate, para lembrar Drummond, ao poder recalcitrante e danoso que a mídia possui sobre a juventude. Os livros da Série Vaga-Lume são facilmente encontrados nas bibliotecas das escolas... Comece já a trabalhar com estas obras e verás o resultado profícuo trazido pelo incentivo à leitura, ao conhecimento, à crítica e à adoção da literatura como instrumento de intervenção social.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O medo da crítica.

Se analisarmos com um pouco mais de argúcia os hábitos, trejeitos e cacoetes de nossa sociedade, chegaremos a uma fatídica e lamentável conclusão: grande parte das pessoas ainda se esconde das discussões mais densas, fogem das críticas à situação política, econômica e social do país e, sobretudo, temem a aprofundar em questões tão cruciais no que diz respeito ao futuro desta sociedade. Outra trincheira na qual se esconde essa referida maioria é no fato de que o país está melhorando, o que nos poderia remeter a um questionamento inicial: o fato de o brasileiro estar vivendo cada vez mais, e com mais qualidade é fator que impede que critiquemos a mídia manipuladora, deformadora da opinião pública de que dispomos? Os altos impostos que pagamos? O preço estonteante do combustível e o grande atraso de nossa educação?
Certo dia, conversando com um profissional da educação (eu estou me formando um), ouvi a seguinte crítica à crítica (isso mesmo, ele criticou a ação de criticar): “a crítica pela crítica não resolve nada”. Isso me fez, após a conversa, parar para refletir, e as idéias fervilharam. Mas, antes de passar para o momento pós conversa, é necessário que se relate outras partes do diálogo que se consolidou. Eu questionei sobre o que ele propunha no lugar da crítica, e ele me respondeu que, aliado à crítica, sempre deve vir uma solução. Qual! Mas a crítica (e quando falo em crítica me refiro à crítica densa, bem fundamentada, com embasamento teórico, baseada em conhecimento, mínimo que seja, de causa) nesses termos, já diz tudo sobre a solução. Por exemplo, se critico um ato de corrupção do país, nada mais óbvio de que minha proposta de solução está implícita: devemos eleger políticos minimamente preparados, de valores, com princípios ou, ainda, essa atitude ilícita não deve voltar a ocorrer. Desde que minha crítica seja compreendida, ela já pode ser aceita como proposta de solução. Isso, necessariamente, não quer dizer que eu sempre deva, nos textos críticos, apresentar essa ou aquela solução para esse ou aquele caso. Mas para esse profissional, não! É necessário que se dê soluções para tudo o que é criticado. Em outro momento da prosa, eu o disse que se em tudo que ele for criticar tiver que colocar uma solução, com certeza irá se esbarrar constantemente no senso comum (claro, por que às vezes temos total embasamento para realizar uma discussão crítica, sem ter necessariamente conhecimento o suficiente para realizar propostas). A resposta dele foi que “senso comum” diz respeito a uma idéia que tem lugar entre muitas pessoas dentro de um grupo, quando na verdade, pelo menos pela minha compreensão, senso comum é aquele pensamento de tal ou qual aspecto que se faz sem que haja conhecimento de causa, sem que se saiba do que se trata, sem possuir arcabouço teórico suficiente para alicerçar os argumentos, e não necessariamente uma idéia comum a muitas pessoas.
Após à discussão (que apesar de não chegar a nenhum ponto comum, foi edificante) as reflexões surgiram com relativa consistência. Sim, é verdade que existe a crítica pela crítica, mas isso não quer dizer radicalmente que todas as críticas que não proponham soluções o sejam. Evidentemente que não. Crítica pela crítica é aquela feita no vazio (na última campanha (a)política tivemos muitos exemplos...), sem embasamento teórico específico, sem direcionar o verdadeiro foco a ser abarcado, sem utilizar-se de opiniões parecidas e até divergentes para comprovar a coerência e a relevância do objeto a ser criticado, etc. Em contrapartida, a crítica de qualidade, rigorosa, feita com cuidado, comedida e alteridade, essa sim, sequer necessita de solução, embora o possa ter, desde que essa solução não seja baseada no senso comum, ou, ainda, baseada no “acho que deveria ser assim”, “quem sabe se eles fizessem isso”, “mas eles podiam agir de tal maneira”...
Neste aspecto, defende-se uma fatalidade no interior da opinião pública brasileira, ora, a ausência de coesão entre as idéias (o que impossibilita qualquer manifestação em prol de sua melhora – a melhora das idéias). Faltam organização de idéias, discussões densas que feitas com argúcia podem gerar polêmicas extremamente salutares. Esse profissional da educação a que me referi acima, no momento em que foi tocado na questão do salário dos professores, disse: “vocês ficam discutindo coisas que os políticos nem estão preocupados”. Deveras, o sistema educacional público se tem mostrado totalmente falido, desprezado, praticamente esquecido no que concerne aos interesses do governo (sobretudo os estaduais), mas daí encontrar motivo para deixar de lado essa discussão? Isso só mostra e evidencia a alienação de grande parte da chamada “massa de manobra”. Claro que devemos discutir (mesmo que não sejamos ouvidos), criticar, insistir, sermos chatos mesmo, mas o caos educacional do país não pode ser deixado de lado por ser um problema considerado crônico.
Dessa maneira, a crítica feita diz respeito à ausência de coragem para enfrentar o complexo, a crítica, aquilo que está diante de nós, pedindo para que o transformemos e nós simplesmente viramos a face, receosos do que pode acontecer caso decidamos enfrentar a problemática que lamentavelmente se coloca. Além disso, se pretendeu mostrar a ausência de ânimo e coesão dentre os profissionais (seja de qual for a sua área) e, mesmo, a comodidade deles em encarar as discussões que, mesmo não levem a lugar algum, devem fazer parte do cotidiano das pessoas, haja vista ao fato de que nossos antepassados lutaram arduamente para alcançarem uma sociedade democrática e, sobre isso, devemos mostrar o mínimo de gratidão, lutando para que continuemos num país em que todos possuem voz ativa. Ou seja, criticar, opinar, deformar a realidade que nos é imposta, por meio da dialética, da hermenêutica, da retórica, é um papel ao qual devemos, sim, nos responsabilizar, caso queiramos continuar numa sociedade relativamente igualitária de direitos.

domingo, 23 de janeiro de 2011

CONSCIÊNCIA NACIONAL: ALGUMAS CONCEITUAÇÕES

Trabalho da disciplina "A formação das Identidades Nacionais Latino-Americanas", ministrada pela professora Drª Daniela M. da Silveira, na Universidade Federal de Uberlândia. Texto elaborado para a avaliação do módulo I, dialogando Benedict Anderson, Eric Hobsbawm e Antônio Mitre.

CONSCIÊNCIA NACIONAL: ALGUMAS CONCEITUAÇÕES
Nação, nacionalidade, nacionalismo – todos provaram ser de dificílima definição, que dirá de análise. Em contraste com a enorme influência do nacionalismo sobre o mundo moderno, é notável a escassez de teorias plausíveis sobre ele. [1]
     Efervesceram, durante a década de 80, no interior da historiografia, ardentes discussões acerca do conceito de nacionalismo. Com o objetivo de justificá-lo, ou mesmo defini-lo, alguns historiadores participaram desse debate, por vezes mais parecidos com embates. Dentre eles, Eric Hobsbawm e Benedict Anderson são figuras de considerável respeito. Cada qual com seu ponto de vista e com o arcabouço teórico específico para defender o que acreditavam serem os elementos justificativos de suas teses.
     Com seu clássico da historiografia, Comunidades Imaginadas, Anderson defende a idéia de que as nações não são fixas, mas imaginadas. Ou seja, representam um conjunto, uma comunidade nos quais as pessoas se vêem inseridas. Nestas comunidades, estão presentes elementos que de alguma maneira representam as pessoas que nela vivem. Estes elementos, língua, religião, corroboram com a existência de uma legitimidade emocional profunda, que interligam imaginariamente todos os seus membros.
     Para contextualizar seus conceitos, Anderson parte dos novos estados americanos do final do século XVIII e início do XIX, e utiliza alguns exemplos essenciais para defender sua tese. Estes estados eram, como ele nos apresenta, crioulos, e neste momento histórico lutavam por sua libertação. Um dos motivos para este anseio era o fato de que os primeiros imigrantes americanos, que habitavam a América não eram aceitos como governantes desses estados. Para governá-los, eram emitidos espanhóis moradores da Espanha, o que gerou grande descontentamento em meio à elite crioula. Ou seja, os crioulos não compreendiam e não aceitavam que não pudessem ter autonomia dentro de seus estados e que eram necessários habitantes da Espanha para governá-los sendo que eles tinham descendência hispânica.
     Para contribuir com a insatisfação,
(...) Madri estabeleceu novos tributos, aumentou a eficiência da arrecadação, impôs monopólios comerciais para a metrópole, restringiu o comércio do hemisfério em proveito próprio, centralizou hierarquias administrativas e promoveu uma imigração maciça de peninsulares. [2]
     Desse modo, a necessidade de uma linguagem política capaz de alcançar a camada popular e difundir o desejo de independência, por parte das elites americanas acompanha o nascimento da necessidade de um instinto nacional. Sob este aspecto, a elite crioula encontra meios essencialmente eficazes de alcançar as massas e sobrepujar sobre elas a sua pretensão de desligar os vínculos com a Metrópole. “Assim, a oficina tipográfica surgiu como elemento-chave das comunicações e da vida intelectual comunitária dos Estados Unidos.” [3]
     Com o surgimento dessa linguagem política usada para construir uma legitimidade e o surgimento das identidades, os discursos tomam como base símbolos e metáforas, ou seja, criam imagens na mente dos receptores desse discurso. Em 1878, por exemplo, percebe-se o uso desses discursos incutidos no processo de Independência da América Espanhola. E a eficácia política desse uso é incontestável. Enfim, são discursos políticos, baseados em metáforas e instrumentos retóricos que ambicionavam difundir no imaginário popular imagens que contribuíssem efetivamente com a ascensão dos chefes políticos, nesse caso, da elite crioula.
     Os elementos elencados por Benedict Anderson que mais possuem influência na definição de uma identidade nacional são a religião, a língua e a imprensa. Sendo que esta última, difundida em romances e jornais, foi destacada por ele como fundamental, e que proporcionaram o surgimento de definições próprias acerca do que seria essa comunidade imaginada, e quais seriam as histórias “selecionadas” para representá-la. Neste sentido, uma comunidade imaginada passa a apresentar uma história que tem por definição deixar na memória aquilo que lhe convêm, bem como esquecer o que não convêm ser lembrado. Assim, por exemplo, como apresenta Anderson, há algumas generalizações atestando que algo que faz parte do presente, seja exaltado como algo que acompanha esta comunidade desde o passado, ou seja, tornar o novo, antigo (ANDERSON, 2008).
     Outro ponto de vista que permeia a década de 1980 é a do historiador marxista Eric J. Hobsbawm. Confrontando efusivamente as teses supracitadas, defendidas por Benedict Anderson, ele inicia o capítulo “O protonacionalismo popular”, em sua obra, Nações e nacionalismo desde 1780: Programa, mito e realidade, contrapondo, já nos primeiros parágrafos, as idéias de que a língua, a religião, a imprensa e a legitimidade emocional são os elementos chave na formação de uma identidade nacional. Para ele, “nenhum dos (...) tipos pode ser legitimamente identificado com o nacionalismo moderno” [4].
     Além disso, para Hobsbawm,
(...) não há razão para supor que a língua tenha sido apenas mais um entre os muitos critérios pelos quais as pessoas pertenciam simbolicamente a uma coletividade humana. E é absolutamente certo que a língua não tinha ainda um potencial político. [e] (...) as línguas multiplicaram com o Estado, e não o contrário. [5]
     Sob este aspecto, a contraversão existente entre a teoria de Benedict Anderson e Eric Hobsbawm é incontestável. Pode-se dizer, ainda, que a segunda foi resposta à primeira. Isso fica claro quando se nota o questionamento feito por Hobsbawm sobre a linguagem e a imprensa, sendo o primeiro desses elementos evidenciado com o texto do autor, transposto acima. Além disso, este autor enfatiza sua crítica a Anderson, elencando elementos da teoria marxista. Ele faz isso, por exemplo, ao destacar que as nações são baseadas em dois pontos divergentes, os de baixo e os de cima. A saber, a classe dominante e a classe dominada, o que deixa claro o teor marxista de suas constatações. Todos estes fatores só contribuem para uma conclusão: Benedict Anderson atenta-se mais às questões culturais, enquanto Hobsbawm, preocupado com as classes e divisões sociais, leva esta questão à discussão relacionada às teses marxistas.
     Enfim, Hobsbawm contrapõe a afirmação de Anderson acerca da influência da imprensa e dos jornais sobre a formação das identidades nacionais na América hispânica. Para ele, ao contrário de Anderson, se mais do dobro da população americana era iletrada, analfabeta mesmo, como romances e jornais repercutiriam na construção de uma identidade nacional? Ora, o que sabemos, e Benedict Anderson evidencia isso também, é que se a imprensa da época foi criada, e inclusive mantida e vivente até os dias de hoje, é porque, evidentemente, haviam muitos leitores e, com isso, os objetivos de difusão da idéias nacionalistas foram sim alcançados. (ANDERSON, 2008). Finalmente, pode-se inferir, que a língua, a religião e a etnia, isoladamente, não formam e nem são o suficiente para definir uma nacionalidade, são apenas componentes que contribuem.
      Outro autor, que se insere nesta discussão, só que num contexto posterior, é Antônimo Mitre [6]. Podemos notar a essência das reflexões de Mitre em uma passagem em que ele analisa O Facundo de Sarmiento. Quando ele afirma,
(...) é fato reconhecido que o destaque que Sarmiento confere à biografia visa a desentranhar, por essa via, os traços essenciais da cultura e as chaves do processo histórico que encarnariam, de maneira exemplar, nas personalidades representativas de uma época.
     Com esta breve menção, ele se mostra mais adepto da teoria de Benedict Anderson, na qual a imprensa assume papel fundamental na difusão do espírito nacionalista em meio às comunidades.
     Para clarear um pouco a hermética discussão proposta por Mitre acerca da metáfora do espelho, é essencial recorrer à literatura. Sobre a metáfora do espelho, por exemplo, Marcelo Rubens Paiva disserta: “O espelho nos dá esta sensação mágica de, subitamente, tomar consciência de si mesmo. É o momento que você se encontra com o que você representa para o mundo” [7]. Neste sentido, Mitre defende a tese de que as pessoas se reconhecem, dentro de uma “comunidade imaginada”, para lembrar Anderson, como se vissem a si diante do espelho, e essa imagem é retorcida. Enfim, nos olhamos com o olhar de quem nos observa externamente. Um exemplo, no caso do Brasil: se os franceses acreditam que o rodeio é um elemento representador do Brasil, passamos a acreditar nessa idéia e nos vermos como “o país do rodeio”. Nesse caso, estaríamos “naturalizando” um dos elementos, como sendo o verdadeiro representante, quando na verdade, existem muitos outros fatores possíveis de serem elencados como representante da cultura brasileira, ela é vasta o suficiente para isso. Estaríamos, portanto, nos vendo no espelho como os outros nos vêem. Esta “naturalização” aproxima-se com a teoria de Anderson, quando propõe que, geralmente, na formação de uma identidade nacional, faz-se do novo, antigo, além, é claro, dos esquecimentos ou negligencias que se faz do passado de uma nação, em detrimento de lembranças que, na verdade, são interesses da linguagem política.
     Com efeito, as três discussões são fundamentais para a compreensão desse momento histórico em que entra em cena as questões do nacionalismo e a atenção dos historiadores para elas. Marxista, Eric Hobsbawm defende a existência dos “de baixo” e dos “de cima”, como forjadores da nacionalidade, e não da imprensa e da língua como difusores e principais meios pelos quais se criaram estas “comunidades imaginadas”. Sendo estas últimas defendidas por Benedict Anderson, historiador experiente que tem sua obra consagrada na historiografia. Enfim, coube a discussão de Antonio Mitre com texto mais fechado e que trás à luz os estudos pós modernos, bem como se utiliza da metáfora do espelho para inserir seu debate naquele concernente à formação das identidades nacionais latino-americanas, contribuir para esta discussão sobre o conceito de nacionalidade.


[1] ANDERSON, B. “Introdução”. In: Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
[2] Idem, p. 88.
[3] Idem, p. 102.
[4] HOBSBAWM, E. “O protonacionalismo popular”. In: “Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 64.  
[5] Idem, p. 78.
[6] MITRE, A. O dilema do Centauro: ensaios de teoria da história e pensamento latino-americano. Belo Horizonte, MG, Editora da UFMG, 2003.
[7]  PAIVA, Marcelo Rubens. Feliz ano velho. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 27.

O risco em dar educação

Bastam alguns olhares mais atentos, críticos, densos para a política brasileira, ou melhor, para os políticos brasileiros para notar o grande medo, o verdadeiro pavor que eles possuem da educação. Isso mesmo: não é a falta de recursos pecuniários, falta de consciência da necessidade dela que o fazem deixá-la em segundo, último plano... E sim a certeza do risco que ela representa para eles. Isso, aliás, só faz afirmar a tese do quão frágil se faz esse sistema no qual a educação é alijada dos princípios básicos da sociedade.
Sob essa égide, e tendo por base alguns preceitos teórico-metodológicos que norteiam as análises políticas, porém fugindo das análises medrosas, aquelas que tateiam nas críticas e não as intensificam, e das mais formais, pode-se inferir o quanto a educação oprime essa classe (a dos políticos). Em primeiro lugar, é possível falar da mídia e do enorme prejuízo que ela teria e teve quando o último governo ampliou as vagas nas universidades. Claro, se há trabalhadores estudando, provavelmente estudarão à noite. Se estudarem à noite, irão assistir o jornal? Irão acompanhar as novelas, o futebol? Claro que não! E mais: depois de terem se instruído nos cursos mais críticos, esses novos estudantes irão de fato insistir em acompanhar novelas (cada vez mais superficiais e com o objetivo cada vez mais acentuado de lançar novos ídolos...)? Ora, tem-se, dessa maneira, um grande problema. A educação, nesta perspectiva, tira telespectadores da frente da televisão, da escuta da rádio, dos jornais manipuladores com os quais estamos acostumados a nos informar, lamentavelmente...
No entanto, o pior (para os políticos) é o fato de que estes estudantes, agora esclarecidos, universitários, elite intelectual, possam criticá-los ferrenhamente. Ou, nem tanto, mas irão, no mínimo, exigir melhores representantes (ou talvez nem queiram representantes, queiram representar!). Viu como será grande o problema? Pessoas que antes estavam mergulhadas em seus afazeres, relativamente alheios em relação à calamidade social do país, agora estão em cursos universitários, dividindo o tempo entre trabalho e estudo, melhorando sua qualificação, e pensando, quem sabe, em ocupar cadeiras no governo! Ora, cidadãos instruídos colocarão indubitavelmente em risco o lugarzinho daqueles coronéis que insistem em se eleger. Coronéis que pouco estão preocupados com esses estudantes! Aliás, agora estão: preocupados com o risco que eles representam.
Não obstante, o último governo pareceu não temer a educação (alguns membros dele), e isso foi um ganho excepcional para o país. É bom que continue melhorando. Quando é dito governo, entretanto, a referência é para o federal, porque os dos Estados (SP e MG, principalmente) estão pouco preocupados com a educação de qualidade, embora já estejam receosos com o crescimento das Universidades...
O maior reflexo de toda essa situação, cabe ressaltar, é facilmente observado nas condições da educação, no cotidiano mesmo das escolas. Ora, se um escrivão de polícia, um vereador, recebe salários até sete, oito vezes o salário de um professor da educação básica, o que se espera da educação? Mais, as condições aviltantes das salas de aula, dos livros didáticos, das bibliotecas, dos banheiros... Afinal, dinheiro há para melhorar tudo isso. Mas, como já foi dito, esse investimento é totalmente contrário aos interesses dos representantes políticos. Seria, para fazer grotesca metáfora, o mesmo que um rato criar um gato... Sendo que depois o bichano cresce e devora o primeiro. Assim ocorrerá com alguns dos célebres governantes: dão educação, logo, professores preparados, alunos críticos, profissionais críticos, cidadãos conscientes, conhecedores dos seus direitos, mídia falida (pela falta de seguidores e, portanto, não podendo formar – ou deformar – a opinião)... E, finalmente, o “povo” querendo assumir o lugar no qual sempre deveria estar (já que estamos numa sociedade relativamente democrática): ora, representando os seus iguais no governo (se bem que isso, de certa forma, vem ocorrendo nos últimos oito anos e um mês).
Portanto, o que se pretendeu mostrar, é o risco que a educação representa para as tradicionais instâncias governamentais, acostumada a eleger os seus coronéis despreparados, manipuladores, absortos em relação às verdadeiras necessidades de sua gente, que, aliás, eles pouco conhecem. Além disso, instruir a população, dar espaço para novos profissionais qualificados, incitar a crítica da juventude, é ferir a tradicional mídia brasileira, a retrógrada política que fora do governo federal (ou seja, nos governos dos Estados, nas Prefeituras, etc.) ainda se mantêm. Apesar de tudo, há que se considerar que ouve avanços, e que eles devem continuar a se ascender.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O medo do complexo - artigo publicado na coluna NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia, no dia 14 de janeiro de 2011.

É comum que as pessoas, sobretudo as mais jovens, busquem facilidade naquilo que estão aprendendo ou fazendo. E é justamente por este motivo que recrudesce assustadoramente a quantidade dos famigerados resumos, sinopses e as resenhas. Se junta a isso a necessidade de dar título às coisas, aos elementos que norteiam a vida.
Dessa forma, assuntos, abordagens, grandes questões, muitas vezes complexos são reduzidos a explicações simplistas, pouco elucidativas do real sentido que possuem e que ficam com significado distorcido, fragilizado, pouco representativo. Esta é a realidade e, lamentavelmente, a tendência da educação no Brasil.
Fato que pode ser exemplificado com facilidade entre os jovens que prestam vestibular, Enem, Paaes etc. Nesse caso, a busca e o uso de “resumos”, tanto dos enormes e fundamentais conteúdos que norteiam o ensino médio quanto nas obras literárias que são cobradas nesses processos seletivos, intensifica a massificação do aprendizado e causa danos imensuráveis à educação. E, afinal, o que isso (re) cria?
Gera o que costumeiramente se nota entre os jovens: descaso pela língua (escrita e falada), desconhecimento em relação a importantes momentos históricos do país, descaso acerca da própria realidade da qual fazem parte, e, finalmente, o mais venenoso dos resultados: a reprodução de um sistema educacional que ganhou força em meados do século XX, o tecnicismo. Neste sistema, o conhecimento torna-se compartimentado, fragmentado e o que é pior, as áreas dele deixam de dialogar.
Portanto, o que se nota é o receio, o medo daquilo que é complexo e que exige maiores esforços intelectuais. A grande maioria das pessoas, ao adentrarem neste danoso sistema, assume, muitas vezes inconscientemente, incapacidade de enfrentamento dessas questões e acabam enclausurando-se dentro de sua área de atuação.
Assim, acabam fugindo a qualquer reflexão mais densa, desconhecendo sua própria capacidade de argumentação e permitindo que as práticas sociais, econômicas e políticas do país arrastem-se sem sua participação, o que, numa leitura mais perigosa e relativa, poderia ser o germe de destruição da democracia.

Matheus Biasi

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"Ser grande não significa agitar-se sem uma razão maior. Porém, muito mais, em encontrar nobre querela, por qualquer coisa, quando a honra esteja em jogo".

Hamlet - William Shakespeare