Trabalho da disciplina "A formação das Identidades Nacionais Latino-Americanas", ministrada pela professora Drª Daniela M. da Silveira, na Universidade Federal de Uberlândia. Texto elaborado para a avaliação do módulo I, dialogando Benedict Anderson, Eric Hobsbawm e Antônio Mitre.
CONSCIÊNCIA NACIONAL: ALGUMAS CONCEITUAÇÕES
Nação, nacionalidade, nacionalismo – todos provaram ser de dificílima definição, que dirá de análise. Em contraste com a enorme influência do nacionalismo sobre o mundo moderno, é notável a escassez de teorias plausíveis sobre ele. [1]
Efervesceram, durante a década de 80, no interior da historiografia, ardentes discussões acerca do conceito de nacionalismo. Com o objetivo de justificá-lo, ou mesmo defini-lo, alguns historiadores participaram desse debate, por vezes mais parecidos com embates. Dentre eles, Eric Hobsbawm e Benedict Anderson são figuras de considerável respeito. Cada qual com seu ponto de vista e com o arcabouço teórico específico para defender o que acreditavam serem os elementos justificativos de suas teses.
Com seu clássico da historiografia, Comunidades Imaginadas, Anderson defende a idéia de que as nações não são fixas, mas imaginadas. Ou seja, representam um conjunto, uma comunidade nos quais as pessoas se vêem inseridas. Nestas comunidades, estão presentes elementos que de alguma maneira representam as pessoas que nela vivem. Estes elementos, língua, religião, corroboram com a existência de uma legitimidade emocional profunda, que interligam imaginariamente todos os seus membros.
Para contextualizar seus conceitos, Anderson parte dos novos estados americanos do final do século XVIII e início do XIX, e utiliza alguns exemplos essenciais para defender sua tese. Estes estados eram, como ele nos apresenta, crioulos, e neste momento histórico lutavam por sua libertação. Um dos motivos para este anseio era o fato de que os primeiros imigrantes americanos, que habitavam a América não eram aceitos como governantes desses estados. Para governá-los, eram emitidos espanhóis moradores da Espanha, o que gerou grande descontentamento em meio à elite crioula. Ou seja, os crioulos não compreendiam e não aceitavam que não pudessem ter autonomia dentro de seus estados e que eram necessários habitantes da Espanha para governá-los sendo que eles tinham descendência hispânica.
Para contribuir com a insatisfação,
(...) Madri estabeleceu novos tributos, aumentou a eficiência da arrecadação, impôs monopólios comerciais para a metrópole, restringiu o comércio do hemisfério em proveito próprio, centralizou hierarquias administrativas e promoveu uma imigração maciça de peninsulares. [2]
Desse modo, a necessidade de uma linguagem política capaz de alcançar a camada popular e difundir o desejo de independência, por parte das elites americanas acompanha o nascimento da necessidade de um instinto nacional. Sob este aspecto, a elite crioula encontra meios essencialmente eficazes de alcançar as massas e sobrepujar sobre elas a sua pretensão de desligar os vínculos com a Metrópole. “Assim, a oficina tipográfica surgiu como elemento-chave das comunicações e da vida intelectual comunitária dos Estados Unidos.” [3]
Com o surgimento dessa linguagem política usada para construir uma legitimidade e o surgimento das identidades, os discursos tomam como base símbolos e metáforas, ou seja, criam imagens na mente dos receptores desse discurso. Em 1878, por exemplo, percebe-se o uso desses discursos incutidos no processo de Independência da América Espanhola. E a eficácia política desse uso é incontestável. Enfim, são discursos políticos, baseados em metáforas e instrumentos retóricos que ambicionavam difundir no imaginário popular imagens que contribuíssem efetivamente com a ascensão dos chefes políticos, nesse caso, da elite crioula.
Os elementos elencados por Benedict Anderson que mais possuem influência na definição de uma identidade nacional são a religião, a língua e a imprensa. Sendo que esta última, difundida em romances e jornais, foi destacada por ele como fundamental, e que proporcionaram o surgimento de definições próprias acerca do que seria essa comunidade imaginada, e quais seriam as histórias “selecionadas” para representá-la. Neste sentido, uma comunidade imaginada passa a apresentar uma história que tem por definição deixar na memória aquilo que lhe convêm, bem como esquecer o que não convêm ser lembrado. Assim, por exemplo, como apresenta Anderson, há algumas generalizações atestando que algo que faz parte do presente, seja exaltado como algo que acompanha esta comunidade desde o passado, ou seja, tornar o novo, antigo (ANDERSON, 2008).
Outro ponto de vista que permeia a década de 1980 é a do historiador marxista Eric J. Hobsbawm. Confrontando efusivamente as teses supracitadas, defendidas por Benedict Anderson, ele inicia o capítulo “O protonacionalismo popular”, em sua obra, Nações e nacionalismo desde 1780: Programa, mito e realidade, contrapondo, já nos primeiros parágrafos, as idéias de que a língua, a religião, a imprensa e a legitimidade emocional são os elementos chave na formação de uma identidade nacional. Para ele, “nenhum dos (...) tipos pode ser legitimamente identificado com o nacionalismo moderno” [4].
Além disso, para Hobsbawm,
(...) não há razão para supor que a língua tenha sido apenas mais um entre os muitos critérios pelos quais as pessoas pertenciam simbolicamente a uma coletividade humana. E é absolutamente certo que a língua não tinha ainda um potencial político. [e] (...) as línguas multiplicaram com o Estado, e não o contrário. [5]
Sob este aspecto, a contraversão existente entre a teoria de Benedict Anderson e Eric Hobsbawm é incontestável. Pode-se dizer, ainda, que a segunda foi resposta à primeira. Isso fica claro quando se nota o questionamento feito por Hobsbawm sobre a linguagem e a imprensa, sendo o primeiro desses elementos evidenciado com o texto do autor, transposto acima. Além disso, este autor enfatiza sua crítica a Anderson, elencando elementos da teoria marxista. Ele faz isso, por exemplo, ao destacar que as nações são baseadas em dois pontos divergentes, os de baixo e os de cima. A saber, a classe dominante e a classe dominada, o que deixa claro o teor marxista de suas constatações. Todos estes fatores só contribuem para uma conclusão: Benedict Anderson atenta-se mais às questões culturais, enquanto Hobsbawm, preocupado com as classes e divisões sociais, leva esta questão à discussão relacionada às teses marxistas.
Enfim, Hobsbawm contrapõe a afirmação de Anderson acerca da influência da imprensa e dos jornais sobre a formação das identidades nacionais na América hispânica. Para ele, ao contrário de Anderson, se mais do dobro da população americana era iletrada, analfabeta mesmo, como romances e jornais repercutiriam na construção de uma identidade nacional? Ora, o que sabemos, e Benedict Anderson evidencia isso também, é que se a imprensa da época foi criada, e inclusive mantida e vivente até os dias de hoje, é porque, evidentemente, haviam muitos leitores e, com isso, os objetivos de difusão da idéias nacionalistas foram sim alcançados. (ANDERSON, 2008). Finalmente, pode-se inferir, que a língua, a religião e a etnia, isoladamente, não formam e nem são o suficiente para definir uma nacionalidade, são apenas componentes que contribuem.
Outro autor, que se insere nesta discussão, só que num contexto posterior, é Antônimo Mitre [6]. Podemos notar a essência das reflexões de Mitre em uma passagem em que ele analisa O Facundo de Sarmiento. Quando ele afirma,
(...) é fato reconhecido que o destaque que Sarmiento confere à biografia visa a desentranhar, por essa via, os traços essenciais da cultura e as chaves do processo histórico que encarnariam, de maneira exemplar, nas personalidades representativas de uma época.
Com esta breve menção, ele se mostra mais adepto da teoria de Benedict Anderson, na qual a imprensa assume papel fundamental na difusão do espírito nacionalista em meio às comunidades.
Para clarear um pouco a hermética discussão proposta por Mitre acerca da metáfora do espelho, é essencial recorrer à literatura. Sobre a metáfora do espelho, por exemplo, Marcelo Rubens Paiva disserta: “O espelho nos dá esta sensação mágica de, subitamente, tomar consciência de si mesmo. É o momento que você se encontra com o que você representa para o mundo” [7]. Neste sentido, Mitre defende a tese de que as pessoas se reconhecem, dentro de uma “comunidade imaginada”, para lembrar Anderson, como se vissem a si diante do espelho, e essa imagem é retorcida. Enfim, nos olhamos com o olhar de quem nos observa externamente. Um exemplo, no caso do Brasil: se os franceses acreditam que o rodeio é um elemento representador do Brasil, passamos a acreditar nessa idéia e nos vermos como “o país do rodeio”. Nesse caso, estaríamos “naturalizando” um dos elementos, como sendo o verdadeiro representante, quando na verdade, existem muitos outros fatores possíveis de serem elencados como representante da cultura brasileira, ela é vasta o suficiente para isso. Estaríamos, portanto, nos vendo no espelho como os outros nos vêem. Esta “naturalização” aproxima-se com a teoria de Anderson, quando propõe que, geralmente, na formação de uma identidade nacional, faz-se do novo, antigo, além, é claro, dos esquecimentos ou negligencias que se faz do passado de uma nação, em detrimento de lembranças que, na verdade, são interesses da linguagem política.
Com efeito, as três discussões são fundamentais para a compreensão desse momento histórico em que entra em cena as questões do nacionalismo e a atenção dos historiadores para elas. Marxista, Eric Hobsbawm defende a existência dos “de baixo” e dos “de cima”, como forjadores da nacionalidade, e não da imprensa e da língua como difusores e principais meios pelos quais se criaram estas “comunidades imaginadas”. Sendo estas últimas defendidas por Benedict Anderson, historiador experiente que tem sua obra consagrada na historiografia. Enfim, coube a discussão de Antonio Mitre com texto mais fechado e que trás à luz os estudos pós modernos, bem como se utiliza da metáfora do espelho para inserir seu debate naquele concernente à formação das identidades nacionais latino-americanas, contribuir para esta discussão sobre o conceito de nacionalidade.
[1] ANDERSON, B. “Introdução”. In: Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
[2] Idem, p. 88.
[3] Idem, p. 102.
[4] HOBSBAWM, E. “O protonacionalismo popular”. In: “Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 64.
[5] Idem, p. 78.
[6] MITRE, A. O dilema do Centauro: ensaios de teoria da história e pensamento latino-americano. Belo Horizonte, MG, Editora da UFMG, 2003.
[7] PAIVA, Marcelo Rubens. Feliz ano velho. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p. 27.
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