Hábito extremamente corriqueiro: realizar interpretações sobre elementos culturais, cotidianos, rotineiros com vistas aos estereótipos midiáticos. O fato, em contrapartida, é que essas mesmas interpretações fazem parte do que se costuma denominar “liberdade de expressão”, e seria extremamente edificante que todas as pessoas pudessem guiá-las com base nos seus próprios conhecimentos, nas suas perspectivas intrínsecas e de acordo com o que entende por subjetivo. É impossível negar a elas, entretanto, que optem por seguir tais estereótipos, desde que isso não seja uma manifestação da alienação.
Nesses termos, é bem provável que se entenda o “sou amante do sucesso, nele eu mando nunca peço” da letra da canção da banda Roupa Nova, como um sucesso que diz respeito ao apelo ao dos artistas, das figuras aparentemente carismáticas que abocanham o seu espaço entre as estrelas televisivas por meios extremamente questionáveis. Quando, na verdade, sucesso para outros, pode ser o de Vasco Bruno, personagem de “Um lugar ao Sol” de Erico Verissimo, que consegue o emprego de desenhista em um jornal da cidade. Deveras, o rapaz conseguiu o que queria: um trabalho naquilo que gosta de fazer. Logo, ele alcançou o seu “lugar ao sol” e, portanto, obteve sucesso naquilo que almejava. Sucesso, nesse caso, é interpretado simplesmente como alcançar um objetivo, seja ele do tamanho que for.
Mais do que isso: é possível ouvir “Fã número 1”, canção gravada por Guilherme Arantes, por toda a vida e jamais compreender o sentido de “entra em cena, faz seu número, faz meu gênero ser seu fã número 1”. Ou compreendê-la, com liberdade, da forma como bem desejar o ouvinte. Nesse caso, sim: ouve total liberdade de interpretação. Difícil, porém, é assistir “Nosso Lar” e não sentir certo receio em relação a Emmanuel, resultado de um rancor reminiscente de Saulo, personagem de “Passione”, interpretado por Werner Schunemann, que no mencionado filme também vivenciou Emmanuel. Nesse caso não há como negar a influência midiática sobre a visão direcionada à eventualidade dos personagens serem representados pelo mesmo ator.
Em outra perspectiva, atentando para a realidade mais concreta, é impossível ouvir “Pacato Cidadão”, do Skank, sem parar para pensar no trecho: “numa mão educação, na outra dinheiro”. Sobre isso, a mídia tem total influência: podem até considerar a informação verdadeira, o problema é que jamais irá dizer de quem é a “outra” mão. A citação é oportuna: de fato, a educação e o dinheiro no Brasil têm estado a distâncias bem maiores do que entre uma mão e outra. Fato comprovado pelo salário dos professores: esses profissionais têm nas mãos apenas a educação. Muita educação, diga-se de passagem.
Dessa forma, o que se nota é a utilização involuntária dos padrões midiáticos pelas pessoas. Na música, no cinema, na literatura, como foi descrito acima, é possível distinguir elementos capazes de somar conhecimentos próprios, independentes, que podem ser interpretados, reinterpretados, vistos e revistos, mas que acabam sendo totalmente distorcidos por aquilo que se acredita ser o verdadeiro sentido deles: o sentido imprimido pelas grandes figuras apresentadas pelas mídias. Figuras, aliás, superficiais, vazias, inconstantes e ficcionais. É nesta perspectiva que se enquadrou o diálogo cultural proposto.

Nenhum comentário:
Postar um comentário